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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 35 - Recuperação e epílogo [Último Capítulo]




- NÃO. – Gritei aos prantos. – NÃO MARCIO.
A enfermeira conseguiu me tirar da Unidade e me convidou a sentar em uma cadeira e me ofereceu um copo de água com açúcar.
- Por favor, - chamei-a. – Como ele está?
- Senhora, eu não posso dar nenhuma informação no momento. Mas aguarde na sala de espera que o Dr. Feitosa irá falar com você. – Respondeu educadamente fazendo pausas regulares.
Dito isso voltei a recepção e comuniquei a Theodoro sobre o apito disparado e a minha saída forçada. Isso só o afligiu ainda mais.
Mais tarde naquele dia, o médico apareceu para falar conosco e eu fui a primeira a avistá-lo.
- Doutor. – Falei calorosamente. – O que houve? Como ele está?
- Calma senhora. – Ele me tranqüilizou. – Naquele momento ele teve uma queda de batimentos que já foi regulada, nada demais, porém ele tem que ficar em observação.
- Ah... – Suspirei aliviada.
- Graças a Deus. – Theodoro agradeceu.
- Bom, acho melhor vocês irem para suas casas. Não tardará a anoitecer. – O Doutor disse e saiu.
A semana passou muito devagar e as noticias de que Marcio estava melhorando vieram consecutivamente. Na quarta-feira ele já estava na sala amarela e não mais desacordado.
Theodoro visitou-o e disse que ele já estava bem melhor, segundo os médicos logo ele receberia alta e no dia em que fui visitá-lo, ele parecia muito bem.
- Oi, Marcio. – Tímida, eu o cumprimentei assim que entrei no quarto.
- Estela? É você mesma? – Custou a acreditar.
- Sim, Marcio sou eu. – Confirmei. – Eu que te trouxe aqui naquele dia na praia. Eu te segui, porque Nicolas conversou comigo e eu queria muito falar contigo.
- Então Nicolas conversou com você? – Duvidou.
- Sim, ele me contou que vocês tinham conversado e disse que me perdoava que não havia motivo para nós não ficarmos juntos, e quando te segui até aquela praia e vi que você não respirava, eu me desesperei. – Contei.
- Um anjo do céu te trouxe pra mim. – Concluiu.
- Bobo, eu sou o seu anjo do céu. – Afirmei. – E é por isso, que não quero mais passar nem um segundo longe de você. Eu quero ser parte de você, quero fazer parte da sua rotina.
- Estela, você quer casar comigo? – Pediu.
- Casar? Não. Já estamos muito velhos para isso, mas se quiser nós podemos viver juntos. Uma aliança no dedo não fará diferença. – Respondi.
- Então você vai para Petrolina comigo, quando eu me recuperar? – Perguntou.
- Sim. Lá deve ser um lugar lindo. – Aceitei.
- E é. Eu moro em uma chácara, as margens do Rio São Francisco. – Falou eufórico.
- Que interessante! – Exclamei ansiosa. – Me conta mais como é lá.
- Bem, lá é muito quente, com se espera do nordeste, mas o povo é simpático, tem shopping, é na fronteira com a Bahia e está se desenvolvendo.
- E as igrejas de lá, com são?
- Há uma catedral em estilo neogótico, muito bonita. - Respondeu.
- Estou me sentido uma adolescente de tão ansiosa. - Desabafei.
Dois meses depois, Marcio recebeu alta e fez as primeiras sessões de quimioterapia, ele já havia voltado ao normal e nós pegamos um avião para o Vale do São Francisco com Théo, enquanto Nicolas e Helena ficaram no Rio de Janeiro.





Três anos depois

Domingo, aniversário de Estela. Almoço ao ar livre, Nicolas, Helena, Joaquim, Marcos e Renato vieram comemorar com Estela, Marcio, Theodoro e Eduarda – a recém esposa de Théo. Estela insistiu um almoço simples e eles acabaram indo para o Bododromo, o maior complexo de bode assado da América do Sul. Pediram carneiro, arroz, feijão, macaxeira, vinagrete e macarrão. De longe, uma família simples.
Marcio levantou e estendeu sua taça de vinho branco.
- Eu proponho um brinde. – Anunciou. – A mulher maravilhosa que me ensinou o que é amar. Que é uma parte de mim, parte a qual eu não consigo viver sem, tão vital quanto meu coração.
Estela ficou vermelha e intimidada, por que todos olhavam para ela.
- E eu estendo esse brinde – proclamou Nicolas – à mãe maravilhosa que me sustentou desde os quinze anos de idade, sozinha. Que trabalhou e me educou com princípios.
- Parem gente. Assim vocês me encabulam. – A homenageada manifestou-se.
- UM BRINDE! – Helena completou.
E todos ergueram suas taças, com exceção de Joaquim e Eduarda que ergueram seus copos de refrigerantes.
- Eu queria aproveitar a ocasião de intensa alegria para dar um noticia. – Eduarda disse e se levantou. – Théo, eu estou esperando um filho seu.
- Meu amor, que noticia maravilhosa! – Theodoro contemplou e beijou-lhe os lábios.
- Eu já sabia. – Disse Estela.
- Como, se eu não contei a ninguém? – Duda quis saber.
- Nenhuma mulher recusaria um bom vinho, sem ter um ótimo motivo. – Ela respondeu.
- A senhora é uma comédia, Dona Estela. – Eduarda rio.
- Que bom que a nossa família, só faz crescer. – Acrescentou Nick. – Parabéns Théo e Eduarda pelo vosso filho.
- Portanto, eu proponho mais um brinde, desta vez ao nosso novo herdeiro. – Marcio propôs.
- Ou herdeira. – Estela adverte.
- Não importa, mas que venha com saúde. – Renato pôs fim.
Assim terminou um casual almoço em família. Todos rindo a toa, e mais tarde naquela noite eles foram apreciar um forró pé de serra na Arena local.

ACONTECIMENTOS FINAIS

Aos 45 anos, Nicolas foi para a Irlanda passar férias e conheceu May, uma britânica encantadora de 34 anos, pela qual se apaixonou e posteriormente se casou.
Helena e Marcos tiveram mais um filho, o nome dele é Rodrigo.
De Eduarda, nasceu uma linda menininha que Theodoro insistiu em chamar de Estela. Estelinha, como eles a apelidavam nasceu gaga, mas foi se tratando em um fonoaudiólogo e anos depois se curou.
Marcio faleceu quatro anos após o aniversário de Estela. Em seu leito de morte, provou mais uma vez seu amor por ela.
Com a morte de Marcio, Estela retornou para o Rio de Janeiro e aos 90 anos de idade, teve um infarto e faleceu a caminho do hospital.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Medo da Verdade - Capitulo 34 - Esperança [Penúltimos Capítulo]



Marcio havia ficado dez dias na UTI em estado grave. Neste período os médicos não autorizaram nenhuma visita por que qualquer variação no ar poderia causar uma parada cardiorrespiratória. Ao fim desse período o médico veio nos dar um laudo oficial.
- Quem é o senhor Theodoro Martins Rangel? – Perguntou o médico.
- Sou eu. – Théo apresentou-se.
- Nós poderíamos conversar sobre o estado do seu pai? - Perguntou.
- Claro. – Théo respondeu e o médico fez menção de ir para outro lugar, mas percebeu que Theodoro não se movia.
- Estela irá comigo. – Anunciou.
- Ok, se você insiste... – O doutor cedeu.
Nós o acompanhamos até o que parecia ser o consultório do doutor. Lá havia uma estante colônia coberta de livros de medicina e enciclopédias. Um birô de trabalho onde havia um notebook e algumas pastas e depois de duas cadeiras onde os pacientes sentam havia uma maca para avaliações.
- Sentem-se, por favor. – Ele pediu.
- Então doutor Feitosa como meu pai está? – Theodoro antecipou-se ansioso.
- Ao longo desses dez dias em que o paciente Marcio Rangel Pereira esteve internado nós, a equipe do hospital, realizamos uma série de exames. Os resultados desses exames confirmaram um tumor na região dos pulmões, que causou uma dificuldade ao paciente de inspirar o oxigênio. Receio que na próxima semana ele será encaminhado para a sala amarela e quando receber alta passará por longas sessões de quimioterapia. – O médico apresentou-nos o laudo.
- Mas, ele ta com câncer? – Pergunto Theodoro assustado.
- Ainda não. O tumor ao qual ele possui não está no estado cancerígeno, no entanto se ele não iniciar logo o tratamento não tardará a alcançar este estágio. – O médico respondeu. – Daqui a dez minutos ele poderá receber uma visita, mas somente uma pessoa.
- Vá você primeiro Théo, você está muito aflito. – Decidi.
- Eu prefiro que você vá. – Théo manifestou-se. – Quando será a próxima visita Dr. Feitosa?
- Quando ele for encaminhado para a Sala Amarela, o que via demorar no mínimo uma semana.
- Pode ir, Dona Estela. – Theodoro concluiu.
- Então, quem vai comigo é a senhora? – O médico perguntou.
- Sim. – Respondi sem hesitar.
Nós fomos para a Unidade de Terapia Intensiva que ocupava o quinto andar. Nós estávamos no primeiro. Ao chegar à unidade fui submetida a todo um processo de higienização das mãos, da roupa e do rosto, que usar uma máscara.
Uma enfermeira me conduziu a maca onde Márcio estava internado e com auxilio de equipamentos para respirar. Ao vê-lo desacordado eu não pude me conter e desatei a chorar e soluçar. Aproximei-me do corpo dele e o envolvi, olhei para seu rosto, agora pálido, pálpebras seladas e expressão vazia.
- Marcio, meu amor. – Comecei a falar e mesmo sabendo que ele não sentia minha presença perguntei: - Você consegue me ouvir?
Não houve resposta e eu não resisti ao silencio.
- Por favor, acorde! Vamos conversar, a gente precisa ser feliz. – Implorei.
De repente a maquina que calculava seus batimentos começou a apitar rapidamente como um alerta. Ti, Ti Ti, Ti, Ti, Ti. Um médico chegou e examinou o corpo enquanto uma enfermeira me retirava da sala. Senti um vazio no coração.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 33 - A prece de Culpa [Últimos Capítulos]



Uma hora se passou. E avistei Nicolas e Theodoro entrando na emergência. Abracei Nick, Théo foi direto para a recepção para pedir informações a respeito de seu pai.
- Mãe, ele está bem? O que houve? – Nicolas perguntou curiosamente.
- É eu também gostaria de saber tudo o que está acontecendo. Começando no que vocês estavam fazendo juntos, fora da festa. – Theodoro ordenou com um olhar severo e eu não gostei nada da sua expressão facial.
- Theodoro eu sei que você está muito abalado com o que está acontecendo, mas isso não é motivo para você expressar essa raiva com todas as pessoas que vem a sua frente. – Tentei parecer o mais persuasiva possível.
- Me desculpe. Agora, por favor, me conte TUDO o que aconteceu. – Se redimiu.
- Aconteceu o seguinte: - Eu iniciei. – Há quarenta e dois anos atrás eu e seu pai tivemos um romance. Esta noite, quando nos reencontramos ele pediu para voltar comigo, eu reneguei, disse que a idade já não me permitia isso. Então ele conversou Nicolas e Nicolas conversou comigo, só assim eu entendi que deveria ser feliz.
“Então fui atrás dele, mas vi que ele havia entrado em um táxi. Eu peguei outro táxi e o segui até copacabana, quando cheguei perto dele e percebi que ele não estava respirando trouxe-o direto para aqui. Enfim, foi uma sorte eu ter estado lá.”
- Meu Deus, Dona Estela. – Theodoro se espantou – Muito obrigado.
- Disponha querido. – Falei em tom doce. – Agora me dêem licença que eu vou ao santuário do hospital.
- Mãe, eu vou com você. – Nicolas se ofereceu.
- Não, depois conversaremos. – Eu o adverti. – Theodoro precisa de alguém nesse momento.
Segui para o santuário. Ao adentrar o espaço percebi que ele estava vazio, melhor assim. Ajoelhei-me a estatua de Nossa Senhora de Fátima, me ajoelhei e comecei a prece:
“Nossa Senhora, sei que nunca fui a pessoa mais crente em Deus e em ti no mundo, mas eu sei que a vós sabeis que nunca duvidei de vossa existência. Eu pequei muito na minha vida, e o Marcio também, no entanto eu imploro que não deixe que Marcio parta, nem que tenha que tocar minha vida sem a dele.”
“Javé, meu coração não é ambicioso, nem meus olhos altaneiros. Não ando atrás de grandezas, nem de maravilhas que me ultrapassam. Não! Eu fiz calar e repousar meus desejos, como criança desmamada no colo da mãe. Israel coloque a esperança em Javé, desde agora e para sempre.” Salmo 131
Sempre que eu me sentia culpada por algo, eu rezada aquele salmo. Eu o aprendi quando fui a uma celebração na Catedral de Notre-Dame de Chatres, na frança. Foi na minha lua de mel. Eu casei em Roma, mas minhas núpcias foram em diversos lugares da Europa. Toda vez que eu ia à Europa eu observava as Catedrais e a mais bonita que achei foi A Abadia de Sant-Pierre, em Mossaic. Eu sou uma admiradora da Arte e em meus 74 anos de vida, não encontrei arte mais bonita que a Românica.
Saí do santuário e voltei para a sala de espera onde Nicolas e Theodoro estavam conversando. Aproximei-me deles.
- Mãe, você já está cansada? – Nick quis saber.
- Não, meu bem. Ficarei aqui até o médico nos posicionar sobre o caso de Marcio. E você Théo, como está? – Perguntei avidamente.
- Só estou um pouco preocupado. Meu pai fumou durante vinte anos e o médico disse que esse período foi muito prejudicial a sua saúde, pois ocorreu na sua passagem para a terceira idade. E quando a senhora disse que ele não estava respirando eu fiquei muito nervoso. – Theodoro respondeu.
- Se nós tivermos fé, esse problema será superado. – Tentei tranqüilizá-lo.
- Acho que vou tomar um café. Estou muito cansado. - Theodoro anunciou.
- Vá mesmo, querido. Eu acho que os médicos só poderão nos dar um diagnostico pela manhã. - Encorajei.
Theodoro foi saindo da emergência e o silencio entre mim e Nicolas permaneceu até que Théo desaparecesse de vista, Até que eu quebrei o silencio.
- O que você queria conversar comigo?
- Eu só queria saber o que de fato aconteceu. – Nick respondeu.
- Eu falei a verdade para Théo. Só ocultei detalhes que você já tem conhecimento. – Afirmei.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 32 - Desespero [Últimos Capítulos]



Meu coração bateu mais forte, tive a sensação de que ele poderia sair pela minha boca a qualquer momento. Eu sabia que não podia correr por dois fatores: A idade não fazia mais de mim uma mulher ágil e, o vestido longo não facilitava o desencadeamento dos meus movimentos. Porém, mesmo assim, eu apressei o passo para a velocidade mais rápida que pude. Marcio não pode ir embora. Eu não posso deixar que isso aconteça.
De repente, tudo parecia estar em câmera lenta, no entanto eu não assimilava o que ocorria a minha volta apenas tinha um foco, como quando eu tinha trinta anos, se o meu foco era matar, eu iria matar.
Finalmente cheguei à saída, mas não havia ninguém lá, além dos seguranças.
- Por favor, - chamei a um deles – você pode me informar se um senhor de aproximadamente 80 anos, moreno, alto, esteve aqui neste instante?
- Sim, - respondeu imediatamente. – ele está entrando naquele táxi. – apontou para o táxi.
- MARCIO. – Eu gritei, mas duvido que ele tenha ouvido, primeiro porque minha voz não tem mais capacidade de gritar tão alto e ele não tem mais capacidade de captar sons ao longe.
Eu peguei o primeiro táxi que vi e disse uma frase que sempre sonhei pronunciar: SIGA AQUELE TÁXI.
O motorista seguiu minhas instruções a risca, permanecemos na cola do táxi do Márcio por um bom tempo, até que tivemos que parar em um semáforo e a distancia entre nós era de dois carros. O sinal abriu e nós continuamos os seguindo, eu não sabia para onde ele ia, mas tinha certeza de que ia para Copacabana, talvez ele tivesse hospedado pelas redondezas de lá, porém minha intuição não acreditava nisto. Ele ia para o Mar.
Chegamos ao calçadão e o carro em que ele estava parou. Olhei para o taxímetro e a conta havia dado R$ 40,00, eu tirei uma nota de cinqüenta reais da bolsa e dei ao taxista. Saí correndo do carro, meu vestido longo arrastando no chão e depois na areia. Parei para respirar.
Marcio para em um ponto onde a maré tocava seus pés, molhavam seus sapatos, foi então que ele se ajoelhou e molhou a calça. Fiquei preocupada, ele podia estar sofrendo uma queda de pressão. Aproximei-me e apoiei minha mão em seus ombros, parecia não ter percebido minha presença, no entanto eu percebi que lágrimas saiam de seus olhos desacompanhados do soluço, é como se ele tivesse parado de respirar.
- MARCIO! – Gritei aos prantos. Mas seu corpo caiu desfalecido. Arrastei seu corpo de volta à areia e chamei outro táxi. O motorista levou Marcio para o carro e nós fomos para o hospital São Luiz.
Chegamos lá em dez minutos que me pareceram dez anos. Os enfermeiros encaminharam Marcio para a UTI já com uma máscara de oxigênio enquanto eu dava entrada em tudo. Liguei para Nicolas e ele passou o telefone para Theodoro então pedi todos os dados necessários para a fixa e ao fim da ligação comuniquei que Marcio estava desacordado na UTI. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 31 – A ficha caiu - [Últimos Capítulos]




Estela
Fiquei sentada na cadeira, absolutamente imóvel. Renato me encarava, como se quisesse saber o que se passava comigo, mas algo o reaprendia de fazer isso. Resolvi tomar mais um gole de champanhe, no entanto eu queria algo mais forte – Whisky, Vodka ou a Pinga Fogo, que provei no nordeste. -, mas se pedisse a Helena ou a Nicolas eles iam me jogar na ponte. Ri com meus próprios pensamentos.
Uma mão tocou se apoiou em meus ombros, de cara percebi que era uma mão masculina. Marcio!? Pensei. Olhei para cima e vi que era Nicolas, ele suspirou e disse, por fim:
- Mamãe, - me olhou com um olhar de censura. – precisamos conversar.
- Está bem querido. Vamos. – Eu disse e me levantei.
Nós fomos a um mesmo jardinzinho que eu fui falar com Marcio. Por um momento o imaginei ali, me esperando, isso me trouxe lembranças da nossa única noite de amor. Sentamos naquele mesmo banco, iluminado por luzes artificiais.
- Então, - comecei. – o que você quer falar comigo?
Antes que ele pudesse responder, eu pensei no quanto nossa relação mãe-filho era aberta, Nicolas sempre confiou muito em mim e me contava tudo, mesmo sentindo a ausência do pai ele sabia que podia confiar em mim para tudo e eu percebi que tudo o que ele me diria naquele momento seria um desabafo.
- Eu conversei com o Marcio, e ele me contou tudo. - Simplificou.
- Tudo é exatamente o quê? – Engoli em seco.
- Tudo. Sobre meu pai, a senhora e o Marcio. E meu Deus parece coisa de novela. Meu pai e minha eram criminosos, minha mãe tem 74 anos e está apaixonada, mas ela tá apaixonada pelo cara que mandou matar meu pai. É muito difícil pra mim digerir isto. – Soltou.
- Meu Deus! – Senti uma pontada no peito, o ar me faltava e minhas pálpebras vacilavam.
- Calma mãe. – Nick me disse em tom reconfortante, pegando minha mão para me tranqüilizar.
- Como eu posso ficar calma, eu não consigo imaginar qual a sua reação. – Falei aos prantos.
- No começo eu me revoltei, mas o Marcio me disse algo que me fez refletir mais. Ele me disse: Pense grande, pense no bem, pense no que será melhor. E foi isso que eu fiz, não fui egoísta, é tão raro ver alguém da terceira idade apaixonado, eu não vou ser o motivo da destruição de um amor tão intenso. Eu estou depositando minha fé em vocês, quero que me provem que um dia eu sentirei um amor tão intenso quanto o vosso.
Meus ouvidos não aceitavam o que eu estava ouvindo. Há anos que eu fico imaginando qual seria a reação de Nicolas, caso soubesse do meu passado e o Marcio conseguiu abrandá-lo, com palavras, com... amor!?
- Onde o Marcio está? – Perguntei desesperadamente.
- Não sei bem, - respondeu. – mas tenho a impressão de que o vi indo em direção à saída.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 30 - Tentativas



- Isso tudo é mesmo verdade? – Nicolas perguntou estatelado.
- Sim, eu não inventaria isso. – Respondi com sinceridade. – E se há algo de grandioso que aprendi com Estela foi que: Falar a verdade dói, mas não dói mais que a culpa que trás uma mentira.
- Nossa então quer dizer que minha mãe era uma assassina e meu pai um mafioso. – Concluiu. – Eu deveria ter sido criado em uma família totalmente desestruturada, mas não. Eles abriram mão de tudo por mim e Helena. Por isso que a mamãe dizia que o papai investia. Ele se desfez de tudo que tinha investiu. Tudo faz sentido!
- Será que você não pode focar no ponto de vista que Estela e eu somos um casal separado pelo tempo e unido pelo destino? – Eu o trouxe a realidade.
- Desculpa Marcio. – Nick se redimiu. – Mas é que é difícil saber de todo o passado sujo dos meus pais e ainda ter que digerir que minha aos 74 anos está apaixonada.
- É justamente neste ponto que eu queria chegar. – Confessei. – Eu sempre fui apaixonado por Estela, mas não sabia que ela havia casado com Romano e formado uma família, então a 20 e poucos anos eu mandei por um fim na vida dele.
- Você o que? – Nicolas perguntou indignado. – Eu devia lhe denunciar...
- Mas você sabe que se me denunciar, em meu depoimento eu terei que falar meus motivos e dizer que sua mãe vivia do crime e ela iria para o xilindró comigo. – Completei.
- Não foi isso o que eu pensei. – Ele contrapôs – Mas vendo por este lado...
- O fato é que eu ainda amo a sua mãe e sei que sua mãe ainda me ama, no entanto quando eu confessei tudo ela disse que eu havia destruído uma família. – Fui mais claro.
- E destruiu mesmo! – Confirmou.
- Sua mãe foi egoísta. Pense em quantas vítimas eles fizeram, quantas famílias eles destruíram. Pense no quanto eles impediram num avanço de país que hoje é recordista em homicídios, em acidentes de carro, em tráfico de drogas e armas. Será que o meu erro foi tão grave assim? Será que só eu errei? Ou será que só eu não mereço perdão, uma segunda chance? – Expus a realidade para os seus olhos cegos diante dos fatos.
- Eu não sei o que fazer. Essa decisão não depende de mim. – Desabou.
- Depende sim. Se você conversar com sua mãe e enxergar que você não veria problemas em nós termos um relacionamento a esta altura do campeonato e com os nossos erros, Estela me dará uma chance. Eu tenho certeza. – Minha voz era serena e convincente.
 - E eu? Você não olha pro meu lado? Hoje é meu aniversário! Era para ser um dia feliz, mas eu descobri o passado dos meus pais. Um passado sujo, e ainda por cima minha mãe de 74 anos está apaixonada por o pai de um dos meus clientes. Isso me faz pensar que o mundo é pequeno, que o céu é pequeno, que o tempo é pequeno. – Desabafou.
- O mundo sempre será grande, o céu sempre será grande e o tempo sempre será grande para as mentes pequenas. – Corrigi-o. – Pense grande, pense no bem, pense no que será melhor, acabar com o resto de vida que ainda resta a mim e sua mãe ou nos dar um fim de existência tranqüilo e desejável.
- Eu vou conversar com a minha mãe, mas e a minha irmã? – Seu tom era agonizante.
- Para de pensar em problemas, sua irmã não precisa saber, esse vai ser o nosso segredo. – Solucionei.
- Então tá. – Concordou.
Ele se levantou e caminhou para o salão principal. Eu não sabia se ele iria falar com a mãe, se iria falar com os envidados ou se iria ignorar tudo o que estava acontecendo, mas de uma coisa eu sabia muito bem: Eu iria ficar com Estela.
Levantei do banco e fui ao salão também, mas ao invés de vigiar Nicolas ou conversar um pouco, eu fui à saída. Olhei para o transito rápido lá fora, os carros passando, o tempo passando e cada minuto passado, era um minuto a menos com Estela.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 29 – A Nossa História



Marcio
Estela saiu a passos apressados em meio à multidão. Eu fiz menção de segui-la, mas Nicolas puxou meu braço com certa dosagem de força e perguntou o que eu imaginava:
- O que está havendo? – Ele perguntou com uma expressão séria e furiosa na face.
- É uma longa história. Uma história de anos, que só diz respeito a mim e a sua mãe. – Revelei.
- Eu sou uma parte da minha mãe. Então me diz respeito também. E a propósito eu adoro histórias. – Nicolas advertiu e comprimiu sua mão em meus braços, como se quisesse me forçar a dizer.
- Você realmente quer ouvir? Essa história pode mudar o rumo da sua vida? – Persuadi-o.
- Sim. – Assegurou-me com convicção.
- Então comece soltando suas mãos do meu braço. – Eu disse. – E vamos a um lugar mais reservado.
- O.k. – Concordou.
Nós fomos ao mesmo jardim em que eu e Estela conversamos estantes atrás. As luzes artificiais continuavam ligadas e não havia rastros de que ninguém havia ido lá desde que eu saí.
- Então, me conte o que está acontecendo. – Nicolas ordenou assim que sentamos no banco.
- Olhe, eu não sou obrigado a lhe contar nada, mas preciso de sua ajuda e sei que já é bem maduro e vai entender tudo, mas eu não vou receber ordens. – Adverti-o.
- Está bem e desculpe. – Concordou redimido.
- Tudo começou há 42 anos, - comecei. – eu morava na fronteira entre o Mato Grosso e o Pará. Uma mulher linda de cabelos negros, corpo sensual e olhos verdes vibrantes. De inicio estranhei alguém vir até minhas terras, mas ela me explicou que estava perdida e que ia à Belém. Neste mesmo dia, enquanto conversávamos essa mulher me seduziu e nós fomos até o final. Bem, essa mulher era Estela.
“No outro dia, ela havia acordado e me pedido para ficar mais uns dias, pois o seu pneu estava furado, eu disse que podia. Ela fez um almoço delicioso e eu fui mostrar a ela um precipício de beleza inigualável que se situava em minhas terras. Ela então me contou tudo. Toda a verdade e a verdade era que ela era uma espécie de agente de Augusto Romano, um mafioso ao qual eu também já havia trabalhado, mas que me arrependi e denunciei um de seus esquemas. Aquela denuncia me colocou em um programa de proteção a testemunhas e eu fui pra aquela fazenda.”
“Eu relevei tudo o que ela disse, por que ela me confessou que matava homens com veneno de cobra. Não sei por que perguntei isso, no entanto essa informação me parecia significativa e foi. Já era noite quando me recolhi e percebi que Estela já estava dormindo. De madrugada, senti uma dor enorme dentro de mim, como se um ácido estivesse circulando em minhas veias ao invés de sangue.”
“Estela acordou com meus gritos e me levou, aos prantos, para um hospital próximo. Lá ela informou a todos que era minha irmã e que seu nome era Patrícia Rangel. Assim que acordei na manhã seguinte, já recuperado, o médico me disse na presença de Estela que uma cobra havia me picado, e que ela sabia disso, mas não me contou.”
“No momento em que o médico disse isso eu culpei Estela, porque estava óbvio. Ela matava com veneno de cobras e eu havia sido envenenado. Assim que a culpei de tudo ela saiu correndo do hospital, com medo de ser denunciada. Mas isso a denunciava para mim, confirmava minhas suspeitas de que ela era culpada”
“Mas eu não a denunciei para policia, pois depois eu vi que eu realmente fui picado, por que a cobra tinha deixado um hematoma, que eu não tinha percebido. Eu perdi o amor da minha vida à toa.”

quarta-feira, 28 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 28 – A Revelação



Agora tudo fazia sentido. O toque e o olhar familiar, mas quando eu imaginava um possível reencontro com ele, o Marcio seria bem triste e não um velho inquieto, como Theodoro dissera. Ele olhava diretamente para meus olhos, em um momento pensei que ele fosse me beijar, mas não.
- Eu tenho tanto para lhe falar! – Exclamou. – Vamos lá fora.
- Tudo bem. – Concordei.
Ele me guiou para um jardim anexo ao salão de festas. Lá havia um banquinho iluminado por luzes artificiais que vinham do chão. Sentamos e percebi que algo o impedia de falar.
- O que tinha para me dizer? – Disse segurando sua mão, para lhe proporcionar uma sensação de segurança.
- Eu fiz uma coisa, para me vingar. – Disse entre dentes.
- Se vingar de mim? – Perguntei ansiosa.
- Não, acho que você não foi atingida por essa vingança. - Explicou.
- O que foi? – Eu quis saber.
- Eu mandei matar Romano, e consegui. – Concluiu.
- Então foi você? – Disse em choque.
- Sim. – Admitiu.
- Você mandou matar o pai dos meus filhos. Deixou-me viúva. Você foi o motivo das lágrimas que meus olhos derramaram quando via Nicolas correndo para a porta quando alguém tocava a campainha. Ele gritava: PAPAI. Você tirou a infância de duas crianças inocentes. Seu MONSTRO. – Desabei e levantei do banco.
- Como assim? – Disse e se levantou também. – Você casou aquele com inescrupuloso? Você disse que me amava e casa com o meu inimigo.
- Não deboche. Assim que eu retornei, ele me pediu em casamento e eu aceitei. – Expliquei aos gritos.
- Então se case comigo. – Pediu.
- Nunca. Nunca me casarei com o homem que tirou a vida do pai dos meus filhos. Para você pode não ter sido nada, mas para mim foi o cumulo. – Recusei.
Sai com passos apressados daquele jardim. As lagrimas escorrendo do meu rosto. Nicolas me parou no meio do caminho. Ele ainda estava conversando no mesmo local com Theodoro.
- Mamãe? O que houve? – Ele quis saber.
- Nada meu filho. É só a velhice que me faz chorar com facilidade. – Menti.
Marcio chegou de inesperado e me olhou como quem havia encontrado um tesouro.
- Aí está você. – Disse para mim.
- Então vocês já se conhecem? – Theodoro interrompeu.
- De muito tempo. – Marcio respondeu.
- Que bom então. – Nicolas comemorou.
- Não é bom. Eu não quero vê-lo. Não há espaço para nós dois nesta festa.  – Contrapus.
- Mas o que ele lhe fez de tão grave? – Nicolas perguntou.
- É uma longa história. – Apenas respondi e sai.
Fui andando em direção à mesa, estava com medo de que Nicolas, Marcio ou Theodoro estivessem me seguindo. Precisava ficar sozinha e digerir todos aqueles fatos. Sentei a mesa que eu estava antes. Todos já haviam retornado. Tomei um gole do vinho tinto que estava lá e suspirei.

terça-feira, 27 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 27 – O meu Marcio



- Olá, Renato. – Eu cumprimentei o adorável sogro de Helena.
-Boa Noite Estela, sempre elegante. – Retribui.
- São seus olhos queridos. – Fiquei sem graça.         
Helena e Marcos sempre ficavam desajeitados quando eu e Renato trocávamos elogios. Não era nada demais, não haveria nada entre a gente. Irritar minha filha e meu genro era um dos poucos prazeres que ainda me restavam.
Nós trocávamos idéias enquanto Joaquim adormecia lentamente. Com pouco tempo, eu fui ao toalete e assim que sai uma música linda e romântica começou a tocar. Olhei de relance para a mesa e percebi que Marcos e Helena haviam ido dançar enquanto Renato cuidava de Joaquim.
Senti alguém cutucando meu ombro direito e quando olhei, era um senhor alto, não muito gordo, cabelos bem penteados e smoking. Olhei para os seus olhos castanhos e senti um arrepio na espinha, como se já os conhecesse, mas era impossível, nunca vi aquele senhor na minha vida, mas quanto aos olhos já não tenho a mesma certeza.
- Quer dançar? – Convidou-me, sua mão estendida, ele era um senhor à moda antiga.
- Claro. – Aceitei e lhe dei a mão para que ele a beijasse.
A música ressonava lenta. Pude captar alguns versos:
Tentei falar e pude ver o quanto errei te amei mais que a mim. Ah bem mais que a mim...
Aquela música me lembrou o Márcio e foi aí que percebi que o senhor estava tentando puxar conversa.
- Eu posso saber seu nome? – Ele perguntou e eu por fim ouvi.
- Ah claro que pode. Meu nome é Estela. – Respondi. – E o seu qual é?
Passou-se um longo tempo até que ele me respondeu, sua voz estava tremula como se algo tivesse lhe apunhalado.
- Meu nome é Marcio.
Meu Deus, que coincidência. A música havia me feito lembrar o Marcio, o meu Marcio. Mas os dois não eram o mesmo.
- Marcio de que? – Fiquei curiosa.
- Rangel. Sou pai do Theodoro. Eu vi vocês conversando mais cedo. – Assim que ele me disse isso foi a minha vez de ficar tremula. Agora eu sabia o porquê daqueles olhos me parecerem familiar.
- Nossa você de repente ficou desconcertada. O que foi?
- Marcio, sou eu Estela. Estela Magneto.
- Estela, é você mesma? – Perguntou olhando nos meus olhos.
- Sim, sou eu. – Confirmei.
- Eu sabia que conhecia esses olhos. – Concluiu.
- Eu pensei a mesma coisa.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Medo da Verdade - Capitulo 26 – A escolha



Uma semana depois do pedido nós fomos a Roma. Eu já havia ido lá a um ano e meio atrás, porém estava sozinha e ter Romano acordando todos os dias ao meu lado distancia a depressão.
Casamos-nos pouco depois de termos chegado, foi apenas no civil, pois Romano não era religioso e eu desobedeci a quase todos os dez mandamentos da Lei de Deus. A cerimônia foi simples, só haviam comparecido os noivos e os padrinhos.
A noite de núpcias ocorreu em Viena, a lua brilhava intensamente no céu italiano, Romano embora mais velho que eu dez anos, satisfazia-me, no entanto o que senti por ele nunca deixou de ser carnal, nunca.
Dois anos depois Nicolas nasceu, trouxe-nos alegria e graças a ele nós, eu e Augusto – Romano – deixamos a vida do crime, depois de que briguei muito eu consegui convencê-lo que nenhuma criança merece ter pais na vida do crime.
- Augusto, - iniciei quando fui dar a ele a grande noticia – preciso lhe falar algo muito serio. Algo que terá de mudar o rumo da nossa vida.
- Fale. – disse. – Agora você me deixou curioso!
- Eu estou grávida. – Soltei.
Um sorriso nasceu de sua face antes que pudesse falar qualquer coisa.
- Isso é ótimo! – Explodiu. – Mas por que isso mudará o rumo da nossa vida?
- Por que nenhuma criança merece ter uma mãe assina e um pai mafioso. – Respondi.
- Mas isso é como pedir a um pássaro para deixar de voar. – Comparou e eu vi em seus olhos que toda alegria que soltou quando soube que seria pai se esvaiu como se uma brisa houvesse passado e levado consigo aquela emoção.
- Romano, por favor. A nossa vida está estável, sua conta bancária está bem gorda. Faça investimentos, eles estão em alta. Mas a segurança do nosso filho é que deve estar em primeiro plano, você tem muitos inimigos e eu também já fiz os meus. Temos que prezar a segurança dele e dos outros que virão. – Minha voz saia muito rápida e eu não sei se ele pode depreender tudo o que eu disse.
- Pensando por este lado... – Ele iniciou o que seria uma longa reflexão, que talvez o levasse a repensar sobre toda a sua vida.
- Augusto, eu não pedi. Eu não lhe dei duas opções. Eu tomei essa decisão por mim e por você. – Minha voz de repente mudou para um tom seguro e autoritário exatamente como o de Romano.
- Estela, minha querida. Você sabe que eu não recebo ordens. – Esclareceu.
- E você, Romano, é bem capaz de entender que eu não dei uma ordem. Eu tomei uma decisão! – Meu tom estava cada vez mais seguro e eu tinha a certeza de ele nos levaria a uma discussão.
- Esse tom não faz seu gênero Estela. Você é a mulher meiga por quem eu me apaixonei. – Augusto tentou me tranqüilizar com uma voz pacifista.
- Você não me conhece mais. Agora eu sou mãe, sou uma leoa selvagem. – Deixei bem claro. – Definitivamente eu nunca mais estarei sozinha.
- Então está bem! – Encerrou. – Eu vou me desfazer dos meus negócios e nós vamos ser uma família comum.
- Era justamente isso que eu queria ouvir. – Desafiei.
- Pois já ouviu. Assunto encerrado. – Concluiu.
No fundo eu sabia que o assunto não estava encerrado e que ele queria me enrolar, porém eu não era uma besta e acompanhei o encerramento de tudo. Os esquemas foram acabando, os funcionários dispensados, os vagões foram vendidos e quase seis meses depois daquela conversar eu pude ver que Romano não fazia mais parte daquela realidade.
Dois meses depois do fechamento dos negócios, Nicolas nasceu. Lindo. Olhos azuis, pele branca e cabelos negros. Se parecia muito com Romanos.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 25 - Theodoro




- Mamãe?! – Nicolas chamou minha atenção movimentando suas mãos defronte ao meu rosto como se eu estivesse em transe.
- Olá Nick! – Despertei.
- Parecia que sua mente havia se desligado do seu corpo, foi muito estranho. – Comentou.
- Eu apenas lembrei alguns acontecimentos. – Expliquei.
- Venha, eu preciso lhe apresentar a um cliente. – Me puxou. – Ali está o filho dele.
- Onde? – Perguntei.
- Bem a nossa frente. – Ele respondeu apontando com a cabeça para um rapaz mais ou menos da idade de ela, 32 anos.
- Ah, - falei – é aquele rapaz de gravata vermelha?
- Sim. – Afirmou.
Nick continuou me conduzindo ao rapaz de feições jovens, smoking e gravata vermelha.
- Olá, Theodoro. – Nicolas cumprimentou-o.
- Nicolas, meus parabéns! – Theodoro parabenizou à Nick e em seguida acrescentou – Me chame de Théo, por favor.
- Então me chame de Nick. – Nicolas propôs.
- O.k. – Aceitou. – Não vai me apresentar esta bela dama?
- Ela não é pro teu bico. – Caçoou. – Esta é Estela a minha mãe.
- Muito prazer, Theodoro. – Apresentou-se.
- Estela, o prazer é todo meu. – Estendi minha mão para que pudesse ser beijada e assim ele fez.
- Théo, onde está seu pai? Eu queria apresentar a minha mãe a ele. – Nick perguntou.
- Você sabe que meu pai é inquieto, deve estar rondando por aí. – Théo respondeu.
- Vocês vão voltar quando para Petrolina? – Nick quis saber.
- Amanhã mesmo. – Theodoro respondeu sem hesitar.
- Desculpa - Interrompi – mas que cidade é essa, Petrolina?
- É uma cidade no vale do São Francisco, fica perto da fronteira com a Bahia, hoje, tem uma importante agricultura irrigada para a região e é com isso que eu trabalho: irrigação. - Théo respondeu.
- Que interessante. – Comentei. – Se eu não passasse o meu dia em um asilo, talvez eu tivesse conhecido esta linda cidade.
- Mamãe, - Nicolas advertiu – não é um asilo. É um lar para idosos.
- Lar? – Debochei. – Lá a gente mal se conhece.
- Desculpa Theodoro, - Nicolas se apressou – é que a alguns anos, mamãe teve um câncer linfático e nem eu , nem minha irmã tivemos tempo de cuidar dela.
- E o seu pai? – Desta vez Théo quis saber.
- Ele foi assassinado há vinte anos. – Respondi secamente.
- Minhas condolências. – Théo disse com a voz baixa.
- Nick, meu bem. Eu gostaria de sentar. – Eu avisei. – Se importa Theodoro?
- Não, não. – Théo pronunciou meneando a cabeça negativamente.
Nick me conduziu à mesa onde Helena, Marcos, Joaquim e Renato - o sogro de Helena - estavam.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Medo da Verdade - Capítulo 24 – O Pedido



Ele me levou ao restaurante Del Fiore. Era um lugar bem agradável e sofisticado. Eu nunca havia ido lá, não por que eu fosse uma caipira e sim porque meu trabalho em geral é noturno, portanto eu passo o dia dormindo e nas noites em que eu não preciso trabalhar, eu organizo a minha casa e a minha vida.
O recepcionista nos atendeu e direcionou uma mesa bem ao meio do restaurante. Quase todas as mesas estavam lotadas e, não pude deixar de perceber, por casais.
- O que quer comer? – Ele me perguntou enquanto avaliava o menu.
- Eu nunca comi aqui – comecei – qual é a especialidade da casa?
- Bom, - Ele iniciou o que me pareceu uma longa resposta. – Este é um restaurante italiano e como a maioria dos restaurantes italianos é conhecido por suas massas, mas também atrai um clima romântico, por isso a especialidade da casa são as chamadas massas afrodisíacas. 
- A explicação foi ótima, mas eu queria algo mais especifico. – Insisti.
- Eu gosto do macarrão a milanesa. – Respondeu precisamente. – Mas receio de que você não goste muito de massas, eles fazem um frango delicioso.
- Eu vou querer o frango. – Decidi.
- Eu vou acompanhá-la. – Anunciou.
O garçom foi chamado e o pedido foi feito, enquanto o jantar não ficava pronto pedimos um vinho tinto e a conversa foi agradável, mas nada que demonstrasse relevância no momento. Meia hora depois o jantar ficou pronto e nós permanecemos taciturnos, uma questão de ética. Quando terminamos, ele pediu um creme de sobremesa que chegou quase que instantaneamente.
Assim que finalmente terminamos a refeição – ótima, diga-se de passagem – ele pegou minha mão e disse algo inesperado.
- Estela, - Pronunciou em tom ansioso. - durante esses dois anos em que trabalhei com você, pude ver a mulher maravilhosa que você é. Corajosa, destemida, forte, bonita, charmosa e cheia de graça. Não demorou muito para que eu percebesse que combino com você e quando você partiu em sua última missão, eu me peguei pensando em ti a maior parte do meu dia e só quando pude te ver ao alcance da minha visão percebi que estava completamente apaixonado por você. Por isso eu me sinto na função de perguntar: Quer casar comigo, em Roma?
Por alguns segundos a proposta me deixou estática, mas depois minha resposta se deu por três motivos: Márcio havia me desiludido sobre o amor, Romano era muito parecido comigo e a conversa que tive com Márcio aonde chegamos à conclusão de que Romano não pede dá ordens.
- Sim, eu aceito.